Coronavírus VS Espectáculos de Música ao Vivo e Atividades do Sector Cultural

Coronavírus VS Espectáculos de Música ao Vivo e Atividades do Sector Cultural - Alexandra Gomes

Estamos no início de março de 2020 e eu desejava estar a escrever-vos sobre outros temas, mas não posso ignorar o que tem acontecido no mundo nas últimas semanas e o quanto, em pleno século XXI, com toda a tecnologia e avanços que a humanidade fez em termos de higiene e medicina (e em tantas outras áreas!), um vírus (por sinal, um dos muito maus), tem afectado, direta o indiretamente, o dia-a-dia de todos nós.  Sim, eu não pretendia, mas hoje escrevo-vos sobre um dos temas mais falados das últimas semanas: o coronavírus.

Entendam: eu não podia não dar a minha opinião sobre este tema tão atual, e não podia deixar de refletir e lançar o desafio à reflexão de todos face às óbvias mudanças e ajustes que teremos que fazer de agora em diante (e não se sabe por quanto tempo), incluindo nos trabalhos artísticos, que são tão públicos! Portanto, o artigo de hoje é uma mera opinião, que vale pelo que vale, e é sobretudo um pequeno contributo para o lançar de uma reflexão e de um debate que eu acredito que não deve ser ignorado nem menosprezado.

Salvaguardo desde já que não tenho nenhuma intenção de lançar alarmismos, nem de contribuir para propagar o pânico que atualmente vai circulando cada vez mais indisfarçado nas notícias de todo o mundo. Por outro lado, não poderia nunca dar-vos conselhos sobre medidas de segurança ou de contenção a adotar… Também eu tenho procurado seguir o melhor possível, tal como toda a gente, na minha vida pessoal, social e profissional, as indicações das autoridades competentes.

No entanto, a verdade é que além da óbvia questão de saúde pública, as atuais medidas implementadas em vários países por causa do coronavírus, que contemplam várias contenções e restrições à circulação de pessoas e ao aglomerar de públicos, começam a ter efeitos económicos, laborais e sociais que estão a afetar diversos sectores de atividade. É verdade que parece haver um esforço dos governos para contrariar esses efeitos, mas na incerteza perante tudo o que tem sucedido, será suficiente?


Neste Artigo…


Sem nos apercebermos, em poucas semanas, o coronavírus tem estado a virar a sociedade como a conhecemos de “pernas para o ar”, afectando direta ou indiretamente quase todas as atividades humanas.

A importância de reflectir sobre os efeitos do coronavírus no sector cultural e musical

Quem tem seguido as notícias, o que acredito corresponder à maioria de nós, tem ouvido falar dos impactos do vírus e das suas consequências no sector das viagens e do turismo, no sector da hotelaria e restauração e no sector educativo, por exemplo. No entanto, pouco deve ter ouvido falar sobre o que se passa no sector cultural, já de si economicamente fragilizado em muitos países europeus.

De facto não se tem falado muito, mas o sector cultural tem sido um dos mais afetados em alguns países, o que tem tido implicações diretas na realização de muitos espectáculos musicais (e não só) ao vivo no espaço europeu, bem como na realização de toda uma série de atividades e eventos culturais que já estavam programados e a ser trabalhados há muito tempo.

Sem que nos tenhamos apercebido, em duas/três semanas, a cultura na Europa tem ficado progressivamente “mais pobre”! E isto tem-se verificado tando do lado dos trabalhadores das indústrias e do sector cultural, que têm sido impedidos de realizar o seu trabalho por motivos de força maior; como do lado do público, que tem tido menos acesso aos produtos e serviços culturais, em especial aqueles que são realizados ao vivo, presencialmente e em sociedade.

Como se sabe, muitos eventos culturais têm sido cancelados em vários países. De momento, em algumas cidades e países europeus foi também decretado o fecho excecional de salas de espectáculo por pelo menos 15 dias. Creio que a maioria de nós compreende que as medidas adoptadas têm um fundamento muito forte, e estamos de acordo que, de momento, o conhecimento existente sobre o coronavírus justifica tais medidas drásticas, uma vez que nada estava preparado no imediato para lidar convenientemente com a atual situação.

No entanto, perante a incerteza do que virá a seguir, não creio que lá no fundo não estejamos todos a perguntar-nos sobre o que poderemos fazer e que meios poderemos utilizar para minimizar o impacto destas medidas. Começa a tornar-se urgente arranjarmos formas de poder continuar a trabalhar em segurança e com os nossos públicos. Afinal, este é um sector de atividade económica, que na sua base tem caraterísticas sociais e um contacto humano necessário, e que sempre fez parte da história da humanidade desde os seus primórdios.

A importância de começarmos a debater e refletir é tanto maior quanto a atual ausência de indicações específicas por parte dos governos e autoridades de saúde, para a manutenção da economia e funcionamento do sector cultural e musical. A maior preocupação até agora, e visto o coronavírus ter “apanhado” a todos de surpresa, tem sido (e com razão) a contenção dos contágios e as medidas de saúde urgentes que têm sido implementadas. Mas não podemos ignorar que essas medidas terão necessariamente consequências, com as quais será também necessário lidar mais cedo ou mais tarde.

As notícias não têm focado diretamente sobre os efeitos do coronavírus no sector cultural e musical, mas quem está mais atento verá que se sucedem informações sobre eventos cancelados, salas de espectáculos e museus fechados. Isto mostra-nos que o sector cultural é, a par do turismo e da educação, um dos sectores que tem sido mais afectado e isso terá custos laborais, culturais e económicos que mais cedo ou mais tarde se vão fazer sentir.

O estado atual das coisas, no início de março de 2020

As notícias dão conta de grandes eventos desportivos cancelados em todo o mundo. Também se sabe de muitas feitas e mostras, entre elas a famosa Musikmess de Frankfurt, têm sido adiadas ou canceladas. Muitos museus e monumentos têm fechado as portas para evitar grandes aglomerações de pessoas, proceder a medidas de limpeza e segurança e reorganizar a sua atividade (os casos mais famosos são o Museu do Louvre, que entretanto já reabriu, e o Duomo de Milano, por exemplo). Muitos artistas, músicos, dançarinos e escritores têm cancelado a sua participação em eventos, quer por restrições à sua circulação, quer por motivos de saúde (por vezes, quarentena voluntária, como tem acontecido também em Portugal com alguns dos participantes do Correntes d’Escrita, após a notícia do estado de saúde do escritor Luís Sepúlveda). Os exemplos multiplicam-se por todo o mundo.

Tem-se falado muito de Itália, o país que na Europa tem adoptado as medias mais drásticas e rígidas até ao momento. Mas não só em Itália isto se tem verificado, em França, Inglaterra e Alemanha, muitos eventos culturais e musicais têm sido adiados (alguns cancelados) por restrições e medidas de vária ordem, e, sobretudo por falta de preparação dos espaços e indicações das autoridades sobre como se deve proceder neste momento, para segurança do público e dos trabalhadores.

Com as medidas preventivas accionadas em vários países devido ao coronavírus, será que nos próximos meses poderemos continuar a ter espectáculos ao vivo? Como será o trabalho cultural face aos constrangimentos impostos por força maior e motivos de saúde pública? Contemplarão as medidas dos governos e da U.E. soluções também para o sector cultural?

Dúvidas e reflexões sobre o coronavírus vs espectáculos de música ao vivo e atividades do sector cultural

Vistas as atuais perspetivas e incertezas, acredito ser importante que se comece refletir e a tomar medidas de prevenção para não deixar afundar o sector cultural europeu.  Este é um sector que, embora seja estratégico e importante nas economias nacionais (tal como já tinha explicado no livro “O Negócio da Música Clássica em Portugal – Dicas para Músicos”), é muitas vezes relegado para segundo plano, pelo que, em muitos países, incluindo Portugal, é já por si, um sector com várias fragilidades. O coronavírus pode fragilizar ainda mais este sector?

Sabe-se que por exemplo, uma das regiões mais afectadas tem sido o Norte de Itália, que é um dos motores culturais mais fortes e importantes da União Europeia, que cria, fornece e divulga iniciativas culturais que são depois apresentadas em todo o mundo, em especial no espaço europeu. Aí, dadas as restrições e fechos de salas, as perdas económicas, culturais e laborais têm sido enormes, e começam a ter um impacto negativo prático não só no trabalho de músicos, atores e os mais variados técnicos de apoio, mas também no acesso do público a produtos e serviços culturais de referência. Por outro lado, há muitos artistas que, por estarem em cidades que foram fechadas em quarentena obrigatória nessas regiões, não poderão participar também em  eventos noutros países, o que está a afetar a programação cultural em toda a Europa.

Se começa a repetir-se a mesma situação em todos os países (e aparentemente o risco é real), o quer acontecerá ao sector cultural nos próximos meses? Deixaremos de fazer espectáculos ao vivo? Como ficará a nossa sociedade sem eventos culturais, que muitas vezes também contribuem para a boa saúde de todos?

As novas tecnologias podem ajudar em algumas partes do trabalho, que podem ser facilmente feitas a partir de casa (com um computador, telefone e bom acesso à internet), mas e quando tal não é possível? Vamos ter que “cortar” o lado social das artes sem que haja outra alternativa? O que é possível fazer para manter a segurança do público e dos artistas e trabalhadores?

Bem sei que a ciência tem muito a contribuir para responder a estas questões, mas informações e medidas adicionais imediatas, feitas com base no que já se conhece sobre o coronavírus seriam bem-vindas.

Você o que acha sobre este tema? Qual a sua experiência? O coronavírus tem afectado o seu trabalho de alguma forma? Como tem lidado com esta nova realidade? Partilhe a sua experiência e opinião nos comentários abaixo e faça parte deste debate que interessa a todos nós.

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