Artesanato em Portugal: um Tesouro a proteger e valorizar

You are currently viewing Artesanato em Portugal: um Tesouro a proteger e valorizar

A 19 de Março celebra-se anualmente o Dia Mundial do Artesão. O Artesanato é uma área da cultura muito rica, seja pela sua variedade, seja pela quantidade de trabalho manual e artístico que envolve e exige, seja pelo seu esforço de inovação e, ao mesmo tempo, manutenção das tradições de cada Povo. No entanto, é também, paradoxalmente, uma das áreas que menos se fala no âmbito cultural em Portugal.

Não sei se por coincidência ou por ironia do destino, este ano, o mês em que se celebrou mundialmente o dia do Artesão, foi também aquele em que o artesanato Português (em especial aquele da Póvoa de Varzim) recebeu, em minha opinião, um “abanão”, que deverá servir como um “abrir de olhos” daqui para a frente… Ou não fosse estalada a polémica em torno das Camisolas Poveiras, que até há bem poucas semanas a maioria de nós, portugueses, nem conhecia, e agora, toda a gente parece querer comprar!

Desta vez o acontecimento foi em torno da Camisola Poveira, mas o caso poderia ter acontecido com qualquer outro Tesouro do património cultural e artesanal português. E a chamada de atenção vai para o facto de ter sido uma pessoa de outro país a valorizar algo que é nosso, enquanto nós próprios não o fizemos até ao mês passado, quando a polémica estalou. Mesmo que a estilista americana tenha errado ao se apropriar indevidamente da criação da Póvoa de Varzim, o facto é que depois de o ter feito, a Camisola Poveira passou de algo que estava devagarinho a cair em desuso, para estar nas bocas do mundo e o Município de onde ela é originária começou a fazer de tudo para a proteger, promover e valorizar perante o mundo. Pode-se dizer, neste caso, que “há males que vêm por bem”, mas na verdade não se sabe se esta valorização do Artesanato e do trabalho da(o) Artesã(o) vai ser algo que veio para ficar ou se será esquecido novamente daqui a uns tempos…


Neste Artigo…



O Artesanato em Portugal é uma Arte muito variada, fortemente ligada às tradições populares e realizada sobretudo em meio rural.

Artesanato, uma definição

Polémicas à parte, o Artesanato é definido como “a criação e produção manual, por artesãos, de produtos ou obras originais que fazem parte da cultura popular ou do património tradicional da humanidade,” sendo que “o artesão realiza ou coordena todas as etapas na criação e na produção, desde a preparação da matéria-prima local até ao acabamento da obra” (fonte: INE). Por outro lado, Portugal tem um património tradicional muito diversificado, com formas de artesanato que mudam de região para região e que dão origem a peças decorativas ou utilitárias que, muitas vezes, são muito típicas e únicas.

De facto, dentro do Artesanato português cabe uma miríade de pequenas (e grandes) obras de arte que tomam a forma de rendas, bordados, tapeçarias, joalharia, tecelagem, cerâmica, cestaria, faiança, olaria, para além do artesanato em couro ou cortiça ou a produção de instrumentos musicais tradicionais. Se bem que há algumas peças famosas como o Bordado Madeira, os Tapetes de Arraiolos, a Filigrana de Viana do Castelo e as Rendas de Bilros de Vila do Conde, muitas outras tradições e objetos de Artesanato são ainda pouco conhecida(o)s tanto por portugueses, como por pessoas de outras nações.

Por outro lado, o artesanato em Portugal é uma arte muito ligada à cultura popular e normalmente concentrada sobretudo no meio rural, onde podemos encontrar a maioria dos Artesãos portugueses. Representa também um conhecimento mantido de geração para geração, mas, ao mesmo tempo, como sabemos, é uma Arte que não está isenta de dificuldades em termos de manutenção ao longo do tempo e até em termos do próprio marketing e divulgação que se faz da produção artesanal portuguesa.

Alguns números do Artesanato em Portugal

Mesmo assim, segundo o Instituto Nacional de Estatística, em 2019, os municípios portugueses investiram quase 4 milhões de euros em Portugal em despesas relacionadas com o Artesanato, sendo o Norte do País a zona que mais investe neste tipo de atividade, o que significa que é uma Arte que ainda é valorizada e a qual se tenta manter em diversas zonas do país.

Por sua vez, em 2018, havia 267 alunos inscritos em cursos superiores de Artesanato em Portugal, e houve 60 novos diplomados nessa área, o que, mesmo sendo positivo, representou uma ligeira diminuição face aos anos anteriores. Por outro lado, o volume de negócios resultante da exportação de bens de Artesanato aumentou em Portugal em 2019, ultrapassando os 121 milhões de euros, mas nesse mesmo ano importamos em Portugal Artesanato de outros países no valor de cerca de 129 milhões de euros, numa balança comercial ainda negativa para o nosso lado. 

Esta informação mostra-nos que o Artesanato tem o seu devido peso na economia nacional e europeia, muito embora pareça ser um sector pouco atrativo para os mais jovens.

Sugestões e caminhos para o futuro

Posto isto, a minha crença é que o caso da Camisola Poveira (que “copiada” chegou a ser vendida por quase 700 euros, enquanto as originais são vendidas por cerca de 80 euros) devia servir para refletirmos um instante sobre este sector da artividade cultural, e devia ser usado como ponto de partida para (re)descobrirmos e (re)valorizarmos o Artesanato Português. Isto, não apenas no sentido de proteger e divulgar aquilo que temos de bom e único neste sector, mas também de o valorizar enquanto um dos sectores válidos para contribuir para o crescimento da nossa economia e para o aumento e valorização do trabalho nessa área.

Não sou uma autoridade na matéria, reconheço-o, mas gostaria de aproveitar este artigo para contribuir com algumas ideias breves que podem ajudar a melhorar o nosso conhecimento, contribuir para a preservação destas artes antigas e ajudar a pensar caminhos futuros para esta área de atividade que é importante a vários níveis:

  • Poderíamos, por exemplo, organizar melhor o sector a nível nacional, fazendo um levantamento exaustivo e devidamente sistematizado dos produtos e artistas desta área nas várias zonas do país, e divulgando-os através da criação de uma plataforma digital própria, que funcione como um agregador a nível nacional e seja também articulada com o Turismo de Portugal.
  • Podemos também criar uma série de cursos, workshops e formações que funcionem a nível nacional (e, quem, sabe, também a nível internacional), que permitam o disseminar, conservar e divulgar destas artes como um património cultural e tradicional que é de todos e não apenas exclusivo de determinada zona geográfica específica, bem como facilitem a formação de novos artesãos.
  • Devemos conseguir criar uma comunicação forte, atrativa e interativa (sempre que possível) de cada forma de artesanato e dos seus autores e criadores, para que haja um maior conhecimento geral desta área, e não seja preciso que aconteçam casos como o da Camisola Poveira para que passemos a conhecer determinado produto artesanal.
  • Podemos investir numa maior valorização e comunicação a nível internacional, dando maior visibilidade a estas artes dentro das áreas da cultura e do património cultural, investindo também na classificação e proteção sistemática destes produtos e da sua criação enquanto património local, regional e nacional.
  • Além disso, serve que se invista e se aposte na boa comunicação e marketing dos artesãos e da sua arte, também a nível individual.

As ideias são muitas e podem ser ainda mais e melhores se refletimos todos em conjunto, propormos e encontramos os caminhos possíveis para o futuro. Assim, deixo-vos, queridos leitores, um convite à reflexão sobre este tema e, quem sabe, se conseguimos em conjunto tecer ideias realizáveis e válidas, podemos qualquer dia propô-las formalmente a quem de direito para que possamos contribuir para a diferença e melhoria nesta área cultural. Que vos parece?

0 0 votes
Article Rating
Subscrever
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments